Opa, alguém falou Cortázar?

 

Você lembra do projeto de sanduíches com inspiração na literatura que pensamos em pôr em prática ainda este ano? Chegamos a comentar sobre essa ideia por aqui, que foi instigada indiretamente por um cliente. Sobre isso dizia: “inspirada pela literatura, tento alimentá-los de forma mais ampla, tentando trazer o que acho que faz sentido. Uma batida mais suave, mais harmônica, através dos mais variados sentidos, em conexão entre si.”

E também reconfortada pelo chef Alex Atala e pelos seguintes escritos de Carlos Alberto Dória: “[…] nós ficaremos plenamente satisfeitos se, por qualquer dos vários caminhos que um livro permite percorrer, os eventuais leitores chegarem a partilhar da ideia de que cozinhar buscando sempre um patamar superior de prazer – na atividade de transformação da culinária ou levando a boca o produto deste trabalho – é uma conquista da modernidade que nunca antes esteve tão acessível: […] seja pela valorização dos prazeres alimentares que agora se inscreve na vida lúdica de que pode ter lugar na existência de todos nós, […] será atenção ao seu repertório de possibilidades que este país de futuro no paladar do mundo.”

Nosso próximo autor a ser prestigiado é o escritor argentino Julio Cortázar, que no dia 26 deste mês completaria 100 anos.

185048_10151362955737415_765459292_n

images (6)

Capítulo 7, do Jogo da amarelinha (Rayuela), na voz de Julio Cortázar.

“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

E em homenagem à memória desse incrível autor, considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo (comparável a Jorge Luiz Borges e a Edgar Allan Poe), o Instituto Cervantes, no Rio, inaugura, a exposição “Cortázar 100 anos” com fotografias inéditas feitas fotógrafo argentino Renzo Gostoli. As fotos foram tiradas nas duas últimas passagens de Julio Cortázar (1914-1984) pela Argentina e pelo México. A exposição ocorre até 30 de agosto.

Entrada: gratuita.

Horário: de segunda à sexta, das 10h às 19h, e sábado, das 10h às 15h.

Local: Instituto Cervantes situado na rua Visconde de Ouro Preto, 62, Botafogo.

Telefone: (21) 3554-5910.

E você também pode participar do ciclo de palestras que o Instituto montou:

http://riodejaneiro.cervantes.es/br/default.shtm

Amanhã contamos mais sobre o seu novo Sanduíche?! 😉

Para quem quiser saber um pouquinho mais de seus escritos basta clicar em: http://www.revistaestante.fnac.pt/julio-cortazar/ ou mesmo ouvir aqui: http://www.caracol.com.co/playermini.aspx?id=2142209


Anúncios